"Aiai... vai entender...
Depois de um ano de cursinho, muita privação, preparação, estresse, uma legião de vestibulares - todos seguidos de torturantes segundas-fases - eu consegui o que me parecia impossível: fui a primeira, em todas as provas! Todas mesmo! A primeira, sempre a primeiríssima, após o último colocado da última lista de chamada de *todos* os cursos que prestei... Eu quis morrer -_-'
Aí, quando já estava me resignando à mais um ano de abstinência social, me chega uma carta: eu tinha sido aprovada em química na Universidade O.M.N.I.!!!! Yay!!! Viva!!! Felicidade!!
Nunca ouvi falar dessa universidade.
...muito menos fiz vestibular pra lá e nem lembro onde foi o exame. Portanto, não o fiz... só que... minha mãe achou dentro de minhas apostilas o meu cartão de inscrição pra a prova - e o gabarito! - preenchidos com minha letra, no meu nome e autenticado no banco! o.O
É, não lembro de nada, mas o mundo diz que fiz o que não lembro de ter feito e trata de esfregar isso na minha cara."
Raquel estava bem desperta, com a cabeça encostada na janela, viajando com sua mente para fora do ônibus, em algum lugar entre o passado recente e a monotótona paisagem de estrada.
"Não me dei por vencida, fui pesquisar sobre a tal universidade: nada. Nada em nenhum guia de estudantes, nada na internet. Com alguns malabarismos nas páginas de busca, encontrei referências vagas sobre a cidade em que o campus da OMNI está, Gádira. Mas eram dados básicos tipo IBGE, perdidas num site escolar genérico com visual antigo e cheio de imagens quebradas, provavelmente não era atualizado desde a invenção da Internet."
(Uma placa na estrada: "Gádira: 2km")
"Fora isso, não achei mais nada de nada de informação e, mesmo assim, decidi seguir audaciosamente o rumo do rio e ir conhecer a tal Universidade: a carta dizia que a O.M.N.I. me oferecia uma visita ao campus para eu conhecer as dependência antes de assinar a matrícula, *de graça* e sem nenhum compromisso da minha parte, com ônibus pago por eles, mais alimentação e estadia nos dois dias que eu passaria lá e... Bom, me sinto nas portas de um trem fantasma... 'lasciate ogni speranza, voi ch'intrate'. Agora não tem mais volta."
"Que venha o primeiro fantasma!"
As portas do ônibus se abrem pneumaticamente, jogando para dentro da atmosfera condicionada do veículo a brisa saudável do nascer de um novo dia no interior paulista. Gádira era uma típica cidadezinha, cheia de casas com varanda, árvores bombando oxigênio (suficiente para intoxicar um paulistano desacostumado com este elemento químico), muros baixos e comércio com suas fachadas simples e objetivas: as ciências do marketing e da programação visual sempre passavam longe deste tipo de cidade. Desacostumada a sair do perímetro da metrópole e com o corpo meio mole depois de horas de viagem, Raquel se sentia "fora de sintonia" com a nova realidade ali do lado de fora do ônibus, olhando tudo e interpretando nada, por isso ela mal percebeu o pequeno carro vermelho chegando até o pequeno grupo de passageiros na parada da rua principal de Gádira que um deles ousou chamar de "rodoviária".
- Olá, vocês são Raquel Cortez, Jamil Pedro e Rodrigo Mello? - O motorista do carro era um homem de cabelos curtos escorridos, escuros que nem seus óculos e sempre portando um sorriso explicitamente manufaturado - Meu nome é Mário, sou da universidade O.M.N.I. e vim busca-los, entrem!
"Ninguém soltou um pio durante o trajeto, o guia da universidade não tirava seu sorriso photoshopado da cara e em menos de quinze minutos de distância finalmente avistamos, no fim de uma longa subida asfaltada, uma grande placa de pedra retangular escrita 'Universidade O.M.N.I.'. Nos metros finais da ladeira acima, o veículo pareceu estar precisando recuperar o fôlego, dá uma engasgada no motor, diminui a velocidade e por um instante tenho a impressão de vislumbrar um traço negro cortando o céu de baixo à alto, na frente do pára-brisa. Semi-abro a boca para exclamar algo sobre a visão, mas ela desvanece rápido, rapidamente substituída pelo panorama que se revela de súbito: o campus se mostra a todos nós numa tacada só, lá em baixo. Grande, arborizado, vários prédios, pessoinhas andando ao ar livre. De longe tudo parecia lindo, novo e perfeito, e à medida que descíamos, continuava a ser lindo, novo e perfeito, e real. Como eu nunca tinha ouvido falar daqui antes?"
- Vocês descem aqui, no Conjunto Residencial - Mário para o carro e mata o silêncio. Peguem estas chaves dos alojamentos, guardem a bagagem e em meia hora um guia os levará para conhecer todo o campus. Bom dia e até mais.
E o tal Mário se vai, soltando três vestibulandos numa terra estranha.
"'Raquel Cortez, dezenove anos, sozinha dentro dos escuros corredores da misteriosa e sinistra universidade... Seus passos são cautelosos como os de uma gazela, mas ainda assim ecoam fortemente, quebrando a quietude das ancestrais paredes do quinto andar do conjunto residencial...' E sei lá por que estou pensando como se eu narrasse a história de minha vida em ritmo de filme de terror. -_-' Esse tipo de local afeta a imaginação da gente, viu? ...523, 525, 527 - ela conta a porta dos quartos - 529... 529?!"
Olha novamente para o objeto em sua mão, tira os óculos para ter certeza, limpa as lentes - para ter mais certeza ainda - e mais uma vez põe os olhos no chaveiro. Está escrito claramente, em números grandes, qual era o quarto: quinhentos e trinta e nove!
Confusa, fica vários minutos em pé, com os pensamentos em círculo ("Por que o corredor acaba antes do quarto 531? E como é que eu tenho a chave pro 539?") naquele fim de caminho sombrio, com dezenas de portas trancadas nas suas costas, até que sente um arrepio na espinha, com a impressão de que mãos assassinas se aproximam por detrás dela... Raquel se vira de uma vez, com coragem e com seu coração exclamando de medo. E o que ela encontra ao virar-se é...
Nada. Apenas o corredor vazio.
- Ué...
E se vira de volta para encarar uma última vez a parede do fim do corredor, "de repente errei de andar, ou de corredor e... O.O!!"
...a parede.... desapareceu...!!!
Assombrada, ela encara a nova profundidade do corredor e mais uma leva de portas, cuja numeração começa - naturalmente - do 531. Dá um suspiro e continua...
"Eu não deveria estar dando estes passos adiante - mas ela estava andando - "Quinhentos e trinta e três. A reação normal para fatos assim é dar meia volta. Quinhentos e trinta e sete. E correr sem parar até Sampa. Quinhentos e trinta e nove. É aqui o quarto.
"'Após uma eternidade cheia de conflitos internos, ela meio que decide abrir os misteriosos portões...'"
Nhééééééééééééééé...
"Tudo normal. Um quarto normal, nenhuma surpresa. Graças a Deus!!"
E Raquel encosta na porta e escorrega até sentar no chão, aliviada. Atrás da porta, o quarto 539 era apertado, com um pequeno banheirinho logo à direita da porta de entrada, algums metros a frente, encostado na parede da esquerda, havia um computador. Depois de avançar pela portinhola do banheiro, havia uma beliche à direita, e mais adiante nesse lado, um prático guarda-roupas de duas portas. A janela estava fechada mantinha tudo em tons de cinza-escuro, e, para ela, o lugar tinha o mesmo odor de seu próprio quarto emanava, lá em São Paulo, nas manhãs preguiçosas de sábado. Tinha também a fragância de uma nova vida, num novo lar, só dela.
- Oi!! Você é minha companheira de quarto?
"Só meu, é?"
A voz vinha do alto e de trás, provavelmente na cama de cima da beliche. Era uma voz de garota, mesma faixa de idade de Raquel... a garota para quem o mundo nunca mais foi o mesmo a partir daquele momento, em que ela decidiu se virar para cumprimentar a outra ocupante do quarto quinhentos e trinta e nove.
Pééééééé!! Pééééééé!! Pééééééé!!
Reitoria da O.M.N.I., Seção de Alunos.
Pééééééé!! Pééééééé!! Pééééééé!!
Sala da Coordenadoria de Integração dos Novos Alunos - CINA.
Pééééééé!! Pééééééé!! Pééééééé!!
Naquele momento só havia uma pessoa naquela sala e que, apesar de usar vastos e impenetráveis óculos escuros, era evidente que seus olhos estavam arregalados de pavor. Mário tinha feito besteira em uma das suas funções na O.M.N.I., era por este motivo que o alarme insistia em fazer Pééééééé!! Pééééééé!! Pééééééé!! e era pela ciência desse fato que o funcionário-em-preto estava de olhos arregalados, com a mão no peito, esmagado de pavor contra sua a poltrona predileta. Mário não tinha coração, mas nesse momento estava se portando como se houvesse um. Enfartando.
- Tudo bem?
A mente de Raquel era um agora um painel em branco, como se o quebra-cabeças que forma sua mente tivesse recebido um tapão por trás e todas as peças cairam no chão. Ela não interpretava mais nada, seu olhar se mantinha fixo nos dois grandes olhões de sua companheira de quarto: imensos e negros, num contorno imitando ao dos gatos, mas sem pupila ou íris visíveis, quase planos em sua curvatura e tão reflexivos quanto os nossos. Olhos negros e enormes, cercados de tons de pele laranja, uma franja de cabelos negros e grossos e um dos mais alegres sorrisos que Raquel já viu na vida. Mas, à medida que as peças da sua mente iam voltando ao lugar depois do susto, tudo que nossa personagem loira conseguia pensar é que sua colega de quarto não era humana!
(Geralmente o medo aparece antes do pensamento lógico nesse tipo de ocasião, mas parece que hoje ele decidiu ficar na parada do ônibus lá em Gádira em vez de seguir Raquel ao campus. Talvez o medo tivesse medo de acompanha-la. Seja como for...) o segundo pensamento de Raquel foi achar que estava vendo um clichê de mangá e video-games, uma menina-gato, uma nekomimi.