Portos Cinzentos

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"Numa noite Sam saiu do estúdio e encontrou seu mestre com uma aparência bastante estranha. Estava muito pálido, e seus olhos pareciam ver coisas distantes.

- Qual é o problema, Sr. Frodo?

- Estou ferido - respondeu ele. -- , estou ferido; isso nunca vai sarar.

Mas então ele se levantou (...) e no outro dia ele estava normal de novo. Foi só depois que Sam se lembrou (...) Dois anos antes, naquele dia, estava escuro no vale sob o Topo do Vento."

Às vezes penso sobre como certos sacrifícios são feitos; sobre como vamos, voltamos, lá e de volta outra vez, e o que carregamos conosco, as marcas que nunca se apagam.

Não há esperança para certas velhas cicatrizes; não há esperança de cura e vida normal novamente.

Algumas feridas, não só as feitas pelas lâminas dos reis-bruxos, jamais saram. E tudo que podemos fazer é nos acostumar com a dor que adormece porém volta; só podemos fechar os olhos e pedir para que ela vá embora logo novamente.

Apenas respirar fundo e se acostumar de que ela está lá, e que lá estará.

10 Comentários

Guy em 20/01/04, às 11:54: Mas também podemos procurar ver as feridas de outra forma e tentar fazer com que elas não abram de novo.
Tentar ver a vida de outra maneira... essas feridas ao longo dos anos vão se transformar em "cicatrizes" e depois manchinhas e até que um dia a gente nem lembra bem onde foi que machucou. (Reply)
Petra Tpish em 20/01/04, às 18:33: Mas é *disso* que estou falando... tem algumas feridas que *não* cicatrizam. Por mais que você se trate, ela nunca fecha completamente, e fica uma marca que dependendo, a um toque ou azar do destino, se abre de novo e você só pode tentar passar um bálsamo pra doer menos. Mas está lá. Não fecha. Imagine a morte de um ente querido. Você pode se acostumar com ela. Mas quando você se lembrar, a ferida vai se abrir, e você vai sentir aquela dor que só se pode torcer pra passar logo... tem coisas que são assim. É o que me parece. (Reply)
Nabeshin em 20/01/04, às 19:06: Mas é justamente essa a metáfora que o Tolkien usa com relação a essa ferida do Frodo... ^_^ (Reply)
Petra Tpish em 20/01/04, às 21:47: Eu sei, e é por estar sentindo isso que coloquei isso aqui. (Reply)
Guy em 21/01/04, às 12:42: Petra... tô te achando pra baixo de mais, e quanto a perda de um ente querido... eu bem sei como é. Quando meu avô morreu eu pensei que não ia suportar e hoje ao lembrar dele (uns 12 anos depois) eu penso nas bincadeiras da gente, nos "toques" que ele me dava e no quanto gostava da profissão dele (ele era psicoterapeuta. Hoje eu estou me especializando em psiquiatria e penso no quanto ele ficaria feliz com isso.
As feridas tem de passar a medida que nós amadurecemos e percebemos que não podemos viver dependentes delas. Quem sabe perdoar por exemplo ou tentar ver a causa de outra maneira te ajude. (Reply)
Julia em 21/01/04, às 13:36: Eu pensei em comentar, depois desisti. Agora resolvi que vou postar mesmo. Guy, infelizmente, nem todas as "feridas" tem um lado bom pra gente olhar depois de um tempo. Eu me considero uma pessoa muito otimista, a Petrinha sabe. Mas tem traumas e mágoas pelas quais passei que nunca, nunca vão deixar de machucar. Isso porque elas não são fruto só de uma perda, ou de uma decepção. Elas são constatações da realidade. Uma realidade, um fato, que às vezes é tão cruel, tão dura, que acho que eu até mereço sofrer, por ter evitado tanto encará-la. Como a ferida do Frodo. Não existe um "lado positivo" nela. É um buraco que foi aberto com violência, uma dor infligida por maldade, que nunca vai deixar de doer. E sim, eu sei que isso é uma metáfora.
Ainda que pareça, eu não "curto uma deprê", não tenho o hábito de olhar o lado ruim das coisas, pelo contrário. Mas eu SEI que existem sofrimentos que marcam a gente pra sempre. A gente pode aprender a conviver com eles, mas isso não significa que vão deixar de existir, que somos capazes esquecer. Por mais que a gente deseje isso com todas as forças. Fico feliz por você, que aparentemente nunca teve que passar por isso. É isso aí. (Reply)
Wiseman em 21/01/04, às 16:26: As vezes não temos como saber o quanto a "ferida" foi importante pra nós sermos o que somos hoje. Mas todas as nossas experiências vividas marcam a gente, e muitas marcam pra sempre, mudam um pouco o que somos. Algumas dessas experiências doem muito, é verdade. E umas continuam doendo sempre. Mas elas mudam a gente de formas que não podemos prever, e podem acabar mostrando a sua importância no futuro. Imagina que vc tá andando na rua e pisa num prego. Automaticamente vc abaixa pra olhar o pé, com muita dor. E passa muito tempo lembrando disso, reclamando q seu pé nunca mais será o mesmo. Vc num podia saber, mas se vc continuasse andando normalmente, um dia seria atingida por uma bala, por exemplo.
É por aí... muitas vezes nem sabemos o quanto foi importante pra gente carregar aquela cicatriz. Mas ela faz parte do que somos, por mais que doa, que incomode, que nos faça sofrer. (Reply)
Wiseman em 21/01/04, às 16:31: Quanto ao Frodo, a ferida dele num teve um lado bom!? Foi preciso aquela ferida pra que ele pudesse salvar o Condado e toda a Terra-média. E ele ainda perde um dedo pra isso! Mas se num tivesse perdido, ele teria sido apoderado do poder do Um e o mal teria dominado a Terra média! (Reply)
Petra Tpish em 21/01/04, às 19:52: A Julinha disse tudo que eu queria expressar. obrigada, Ju. Wise, é claro que no caso do fordo, a ferida dele foi um ato de sacrifício heróico. Uma coisa muito bonita, vista de fora. ams qando dissemos que não tem um lado bom, quero dizer, não tem um lado bom pra ELE. Claro que o Cndado e a Terra-Média foram salvos; mas o próprio Frodo constata tristemente, "foram salvos, mas não para mim". Com isso eu não quero bancar a garota gótica depressiva, mas a metáfora do Tolkien foi a maneira qe encontrei de expressar uma preocupação que vem me incomodando a tempos. (Reply)
Guy em 22/01/04, às 12:50: Acho que fui mal interpretado... eu estava tentando dizer que devemos fazer com que esses traumas se transformem em lições e ao mesmo tempo tentemos purgar o sofrimento em forma de otimismo. Não queria dizer que o que a Petra diz é errado nem fazer pouco da vida dela ou dos problemas dela e sim tentei aliviar o peso para não fazer com que a vida inteira ela carregue esse trauma como se fosse um carma ou coisa parecida.
Julia, quando vc fala do choque de realidade.Bem, em verdade qualquer ser humano passa por isso na faze da adolescencia em maior ou menor grau... seja sentimentos de rejeição ou de desamor por expemplo por parte da família ou amigos, mas isso não quer dizer que devemos carregar a violência do mundo dentro da gente. Amadurecemos e percebemos que a realidade é difícil pq o ser humano é difícil e faz da sua vida um inferninho pessoal e tenta inserir ou outros nele.
Mais uma vez quero dizer que não quero com isso falar que o que vocês sentem não é importante... seja a perda, seja a constatação de não ser o filho (a) ou ser preterido, seja a constatação de que não se é imortal etc´, tudo é difícil e nós somos aventureiros nesse mundo amigos! (Reply)

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